sexta-feira, 18 de abril de 2008

Arte Contemporânea


Paulo Bruscky – Ars Brevis

(De 9 de novembro a 28 de abril de 2008. MAC USP Cidade Universitária.)

Foi a partir deste ano que o artista plástico Paulo Bruscky, de 58 anos, tornou-se conhecido, apesar da vasta produção do pernambucano desde os anos 60. Ao aproximar a arte da vida cotidiana Bruscky acabou sendo marginalizado, se manteve fora do mercado e foi incompreendido pela crítica. Desde março, sua obra passa por uma revisão e seu nome virou febre no circuito das artes plásticas.

O reconhecimento nasceu do esforço da pesquisadora Cristina Freire, que assina a curadoria de uma exposição com mais de 150 trabalhos do artista, "Ars Brevis", a primeira retrospectiva dedicada a Bruscky.

O trabalho de Paulo Bruscky, de caráter experimental, recebeu clara influência do grupo de vanguarda Fluxus, que na década de 60 desenvolveu uma atuação social e política radical ao questionar a institucionalização da arte. Artista multimídia, Bruscky foi pioneiro na rede mundial de arte postal nos anos da ditadura militar no Brasil. Ars Brevis revela ao público a assumida precariedade de suas obras, nas quais utiliza como suporte o xerox, a fotografia, o fax, o mimeógrafo, carimbos, recortes de anúncios, panfletos, e até mesmo material e máquinas do Hospital Agamenon Magalhães, no Recife (onde trabalhou por anos no departamento de comunicação como funcionário público), como eletro-encefalógrafos, eletrocardiógrafos, aparelhos de raio X e papel timbrado.

A curadora optou por subdividir a exposição em 7 núcleos, já que a trajetória de Bruscky não obedece a um padrão linear. São eles Eu
Comigo, em que o artista se apresenta como personagem de si mesmo em performances e ensaios fotográficos; Arte Postal, onde pode ser observada a intensa troca de correspondência de cunho político entre artistas de várias nacionalidades realizada nas décadas de 60 e 70; Poesia Visual, com frases sintéticas, colagens e caligramas; Máquinas Poéticas, sobre sua vasta experimentação com máquinas xerox e aparelhos de fax; Biblioteca, composto pelos livros de artista, que compõem grande parte da obra de Bruscky; Hospital-Estúdio, sobre suas experimentações durante seu dia-a-dia como funcionário público de um hospital, que envolviam carimbos e papel timbrado da instituição e manipulação de eletroencefalógrafos, aparelhos de raio x e afins para o desenvolvimento de seu trabalho artístico; Cotidiano, em que mostra objetos de uso comum.

O diferencial de Bruscky é a busca em romper as barreiras entre arte e não-arte

Visita feita em: 13/04/2008

Ao adentrar a exposição, confesso que me deparei com obras de caráter meio sombrio. A música, os vídeos que passavam e as próprias obras eram um tanto assustadoras. Isso até eu conseguir fazer uma releitura de cada objeto visto ali e entender o significado de cada uma delas, não só para mim, mas para a Arte como um todo.

Pelos textos escritos nas paredes de cada sala, que divide cada obra ao seu momento/inspiração, pude perceber a relação que o artista faz entre os objetos de seu cotidiano e a arte. Arte expressa, muitas vezes de uma forma ‘nua e crua’. Outra característica notável do artista é a preocupação com a situação político-administrativa social e econômica do Brasil. -Como a própria obra descreve mais abaixo -


Fica eno nítida sua participação, mesmo que de forma artística, na política do país. Suas críticas juntamente com as suas idéias, esclarecem o ponto de vista que o artista tem de determinada época. Como no caso dessas obras:

A Arte Postal, como o próprio

artista denominou, também denuncia a política da época. Foram estas diferenças que fizeram com que a arte postal tivesse um papel muito especial na América Latina nos anos 70. Artistas como Paulo Bruscky burlavam a censura criando uma rede de comunicação mundial pelos Correios. A troca de posta

is criados pelos artistas transformou-se em uma forma de denúncia sobre os abusos dos militares na América Latina. Eles formavam uma grande rede de troca de idéias e informações, antecipando em 1970 princípios muito importantes da produção artística dos dias atuais, como por exemplo, a internet, que ampliou e aumentou a velocidade das trocas em rede.


Quando digo que o artista transforma o cotidiano em obra de arte, me refiro ao seu mais intimo cotidiano, dos objetos que o acompanhavam todos os dias, durante anos a fio. Como por exemplo, as máquinas do hospital em que trabalhava em Pernambuco. (Carimbos, eletro-encefalograma, aparelhos de raio X...) O artista faz desses objetos aparentemente comuns, algo de importante como no caso da obra “O meu cérebro desenha assim, 1976”, em que o encefalograma é feito no próprio Bruscky e entendido sabiamente pelo autor. como sua cabeça reage a determinados tipos de emoções e pensamentos formando uma série de linhas que mais tarde formam um desenho. (No qual a obra foi intitulada.)

Participam de seu cotidiano também objetos encontrados em sua casa, (não só na dele) como um ferro de passar roupa, um fax, latas de óleo, fotografias, remédios...

-Obras relacionadas ao parágrafo acima (em ordem): “Ferrogravura”,1997”; “Assim se fax arte”, 1990 ; “Quadro a óleo”, 1971-2004; “Persona”,1993 e “Isto é uma Droga”,1971- .
O mais interessante do trabalho desse artista é sua ironia, resultado de uma multiplicidade. Nessa exposição pude notar que Paulo Bruscky é um grande observador do cotidiano. Pois, na maioria de suas obras, rimos diante de coisas corriqueiras da nossa vida, que o artista se apropriou para fazer arte. Como a obra citada acima, o “Ferrogravura”, que é nada mais, nada menos do que a marca do ferro de passar roupa em um pano. -Quantas vezes você não quis morrer por ter deixado acontecer isso?-





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